Nome: ter ou não ter, eis a questão.

É uma sensação muito boa presenciar o nascimento de nosso filho ou filha. É algo de difícil descrição, tamanha a emoção que vivenciamos. 

Neste misto de magia, perplexidade e alegria vemos surgir um ser, ainda desconhecido de nós, apesar de ter se manifestado no ventre da mãe ao longo de nove meses.

Esta experiência da gravidez não revela como ele será, qual será o seu temperamento, seus gostos, sua personalidade. 

Nem por isso, deixamos de escolher um nome, buscando significados, e projetando neste recém-chegado algo que faça mais sentido para nós do que para ele, ainda incapaz de se pronunciar e se manifestar de forma clara.

O nome que ganhamos vai incorporando novos significados aos poucos, não somente para nós mesmos que o possuímos, mas também para os outros. A medida que nos desenvolvemos, vamos descobrindo o mundo, e nos descobrindo, tentando construir na jornada de nossa vida uma identidade que nos seja própria, um nome que seja realmente nosso. 

Esta trajetória de construção da identidade nem sempre é fácil. Ao contrário: é tortuosa, de idas e vindas, de construção e desconstrução.

Um grande obstáculo neste processo é o próprio nome. 

Um autor que aborda isto de forma interessante, é Rubem Alves. Transcrevo abaixo um pequeno trecho de uma crônica dele, que relata um caso de um paciente dele no seu consultório de psiquiatria.

“Rubem eu tenho um sonho. Sonho que, um dia qualquer, eu vou acordar e vou ter esquecido o meu nome. Quem sou eu? – eu vou me perguntar. E eu não saberei o que responder. Não terei memória do meu nome. O ruim é quando a gente se esquece do nome, mas os outros continuam a saber quem somos. Aí os psiquiatras dizem que tivemos um ataque de amnésia. E tratam de nos curar, de fazer-nos lembrar o nome para que saibamos quem somos. O nome é uma gaiola, onde o que somos mora. Declaram-nos curados quando o nosso ser aparece de novo dentro da gaiola. Bom seria se os outros também se esquecessem do nome da gente. Aí eles teriam perdido a memória da gaiola que prendia o nosso ser. E o nosso ser se transformaria em pássaro, e voaria livre por espaços por onde nunca havia voado. O nome é uma prisão.”

Segundo o autor, existiu um povo primitivo, cujas pessoas tinham dois nomes. Um que todos usavam para interagir, e era conhecido por todos. E outro, que era dado pela própria pessoa, em determinada idade, mas que só ela conhecia. Assim, sua identidade individual não era abafada por algo que não foi instituído por eles próprios.

Para se criar o novo, é preciso primeiro esquecer, por alguns momentos, o nosso nome. 

Para nos tornarmos nós mesmos, é preciso esquecer os nomes que nos forjaram, e deixar aflorar nossa essência.

Nossa identidade começa a ser verdadeira e real quando deixamos de ter um nome.

Referência:

ALVES, Rubens. Sete vezes Rubens. Campinas. SP. Papirus. 2012.